Por: Fabrício Carpinejar

Até nos meus sonhos, eu uso máscara.

Quando não me encontro com a proteção facial, já fico ansioso. Mesmo que seja somente um sonho, eu me angustio com a ausência de prevenção.

Acordei, gritando, de pesadelos que estava de rosto limpo no metrô lotado ou no supermercado. Bate um terror no interior de minhas pálpebras fechadas, querendo descer ou sair correndo dali, questionando onde estou com a cabeça para colocar inocentes em risco.

Meu inconsciente absorveu o perigo. Não consigo dormir fora das regras da nova normalidade. Sonhando ou acordado, tanto faz, as restrições me atingiram integralmente.

Por isso, não entendo como ainda brincamos de morto-vivo apesar dos quase 130 mil vítimas de COVID-19.

Não entendo as aglomerações praianas, as pessoas fingindo que ainda existe feriadão para viajar e agindo como se estivéssemos vacinados.

Toda a orla carioca permaneceu repleta nos finais de semana, com gente rindo e se abraçando, jogando frescobol e futvôlei, deitando-se para se bronzear nas cadeiras e nas cangas, sem nenhuma máscara, sem nenhum distanciamento, com os guarda-sóis coloridos se tocando impunemente. Lembrava um outro país distante e inacessível, aliás, é um outro país, verifica-se um outro país dentro do sete de setembro brasileiro que não se importa nem um pouco com os hospitais superlotados e cemitérios cada vez maiores. Vive-se em um mundo paralelo, de inconsequência egoísta e satisfação imediata.

Flexibilização virou sinônimo de arruaça, de salve-se quem puder. O banho de mar está liberado desde o início de agosto, mas os banhistas acham que é apenas para os doentes e transgridem a lei acampados na areia.

A morte alheia sempre será um exagero para a indiferença. A alienação sempre será assintomática.

Enquanto eu me preocupo em ser correto inclusive em meus sonhos, há quem, nem desperto, tem empatia.

Foto: Ana Branco/Agência Globo

 

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