Por: JCS

Anne Caroline Barbosa vivia em Corumbá, Mato Grosso, aos 25 anos se formou em design gráfico. Cheia de sonhos, viu que em sua cidade as coisas ficavam difíceis, foi então que resolveu tentar a vida na “cidade dos sonhos” São Paulo, afinal a capital paulistana “abre os braços com oportunidades” para todos.

Ao chegar em “Sampa” além de não ter onde morar, não conseguiu emprego, Anne quando se deu conta, estava morando nas ruas e viciada em drogas, contudo, ela reuniu forças para superar o sofrimento. Hoje, ela fez da reciclagem um trabalho e um propósito para sua vida, e com seus exemplos mostra-nos o que é superação.

“Tenho 28 anos de idade física e um pouquinho mais de idade espiritual, mas não encare isso como algo negativo, é só um tanto de experiências vividas em tão pouco tempo que acredito ter amadurecido algumas vidas”, as duras experiências e sofrimentos nas ruas lhe ensinaram a dar valor à vida desde que decidiu sair de sua cidade e tentar arriscar a felicidade em São Paulo.

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Chegar na cidade grande e não ter nenhum conhecido, sem moradia e sem emprego foi uma das provas mais difíceis que ela passou. Já na capital paulistana, Anne teve que ir morar em um albergue da prefeitura, no bairro Canindé, e foi justamente ali que conheceu Lucas, o seu marido e pai da filha que teve, e foi justamente na filha que ela encontrou forças para mudar de vida.

Como ela conheceu o vício?

No albergue Anne conheceu pessoas, que lhe apresentaram o “pó branco” a cocaína. Já viciada, ela passava várias noites acordadas sentada nas calçadas da Faculdade de Direito no Largo São Francisco, assim, pedia dinheiro e juntava para financiar o vício. Ela diz que ao final do dia, sempre conseguia entre 150 e 300 reais, forçada pelo vício, todo dinheiro ia para as mãos de uma “amiga” que lhe fornecia as drogas.

“Muitas vezes passei a noite em claro, tinha taquicardia e acabei desenvolvendo uma síndrome do pânico por causa da cocaína. Hoje mal posso tomar café que tenho crise – cafeína desencadeia a ansiedade”, revelou.

anne caroline grávida nas ruas - Ex-dependente de drogas faz da reciclagem seu propósito de vida e dá exemplo de resiliência
Foto: Instagram

Foi justamente neste período que Anne conheceu Lucas, que é seu marido e foi a pessoa que lhe levou a experimentar o Crack. Lucas, nunca gostou de pedir esmolas nas ruas, e ele acabou a ensinando um trabalho que mudaria a sua vida: A reciclagem de materiais!

A reciclagem de materiais lhe rendia um salário que em média era o dobro e às vezes o triplo do que recebia na estamparia onde trabalhou no Mato Grosso. Contudo, para chegar a este valor ela tinha que “ralar” muito, acordando cedinho e indo dormir tarde, por isso decidiram sair do albergue.

Foi assim que ambos decidiram morar nas ruas, afinal o trabalho lhe dava mais dinheiro do que ser “pedinte”. Lucas sempre sonhou em ter um filho, Anne achava que se tivesse um filho a vida deles mudariam para uma situação melhor e longe das drogas.

Poucos meses se passaram, então ela ficou grávida: “Um dia normal, segui a rotina, mas me senti muito mal, fui ao posto de saúde e: grávida! Agradeci a Deus e, reunindo minha gratidão, abandonei todos os tipos de vício e lutei ao lado do meu marido até que ele conseguisse também” relatou.

anne caroline e o marido lucas - Ex-dependente de drogas faz da reciclagem seu propósito de vida e dá exemplo de resiliência
Foto: Instagram

Trabalhando com reciclagem

O casal teve uma linda filha, Mellissa Luz, a criança realmente trouxe uma luz para a nova fase de vida de Anne e Lucas. Logo depois ambos abandonaram os vícios, saíram das ruas com um objetivo maior. Hoje moram em uma casa simples, própria, na favela da Zaki Narchi, zona norte de São Paulo.

O casal trabalha diariamente com a reciclagem, contudo é um trabalho muito marginalizado e discriminado. Eles acabam deixando a cidade limpa pois levam vários tipos de materiais jogados nas ruas para reaproveita-los, mesmo assim, muitos os olham com reprovação, por causa de trabalharem em meio às sujeiras.

“A nossa profissão já é marginalizada, as pessoas acham que somos ladrões. A sujeira faz parte do nosso trabalho, é natural quando se trabalha com lixo”, explicou a jovem mãe.

Com a pandemia, Anne diz que os preconceitos aumentaram: “Dia desses um rapaz parou o carro simplesmente para xingar a mim e ao meu marido. Disse que catador tinha que morrer porque atrapalhava o trânsito, a sociedade. Falou que éramos sujos, um estorvo. Respondi que gosto do que eu faço e pedi que respeitasse a minha profissão. Ele respondeu: ‘Qual profissão? ”, disse Anne.

Uma criança e muitas mudanças.

Melissa hoje tem quase dois aninhos, nasceu com um problema no coração (Tetralogia de Fallot). A menina faz tratamento no Hospital Dante Pazzanese e aguarda se operada, atualmente está morando na casa da avó de Lucas até que a pandemia passe. Afinal na favela tem muitas pessoas contaminadas com a covid-19.

mellissa luz - Ex-dependente de drogas faz da reciclagem seu propósito de vida e dá exemplo de resiliência
Foto: Instagram

A doença da criança se deve ao fato de que no início da gravidez, Anne não sabia que estava grávida, e ainda era usuária de drogas, por isso houve sequelas na gestação. Quando soube da gravidez parou de usar drogas.

Uma vida de lutas e vitórias.

Depois que ela e o marido superam o uso de drogas, Anne tem se articulado para mostrar que os catadores vivem o dia a dia para formar um mundo melhor. “A gente não pode pensar em natureza sem pensar que nós somos a natureza. Estamos cuidando do futuro dos nossos filhos”.

Pensando nestas coisas, Anne escreveu no Instagram de um amigo que: “o preconceito contra os catadores dói mais do que a fome”. Em pouco tempo o post viralizou e assim foi chamada para dar dicas de reciclagem no perfil Bate Papo Sustentável.

O post tem levantado muitos comentários nas redes sociais e colocado muitas pessoas para entenderem que a reciclagem é importante para um mundo mais sustentável.

“Muita gente tem o hábito de descartar o vidro dentro de caixinha de leite e deixar um aviso que tem lixo alí. Mas muitos catadores não sabem ler, não adianta escrever que tem vidro. Tem que colocar dentro da garrafa pet”, explicou Anne.

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Oi gente, tudo bem? Meu nome é Anne Caroline (@anneluca.s), eu e meu marido somos catadores de recicláveis desde 2017. Fomos moradores de rua, viciados em crack e começamos a reciclar inicialmente para sustentar nosso vício, engravidei na rua e graças a isso, e claro muita fé em Deus, conseguimos vencer as drogas. Começamos a reciclar com uma carroça emptestada do ferro velho, mas onde trabalhávamos sofriamos muitas humilhações e não era isso que queríamos pra nós, perder o prazer de trabalhar por causa disso, então com muito suor conseguimos comprar nossa carroça! Ficamos um mês com ela, e estávamos ansiosos para participar da edição 2019 do Pimp My Carroça, desde que soubemos o dia que seria, começamos a contar os minutos! Fomos dormir, para então amanhecer e ir pro evento. Quando acordamos… Ué? Cadê a carroça? Tivemos nossa carroça roubada da porta de nossa casa. Desde então, estamos trabalhando com uma carroça emptestada por um amigo, e quando ele precisa usá-la, é um dia de trabalho perdido, quando não conseguimos emprestar um carrinho de mercado para continuar a luta. E um dia de trabalho perdido pra nós é uma linha tênue entre ter uma refeição ou não. Por isso, hoje estamos aqui pedindo a sua ajuda, sabemos que está difícil pra todos, mas se você puder, vamos ser eternamente gratos pois não vamos só conseguir ter nosso própria carroça, vamos ter a dignidade e a liberdade de conquistar nosso pão sem a dúvida e angústia de pensar que talvez hoje não seja possível trabalhar porque o dono vai precisar usar a carroça… Desde já, agradeço a todos que contribuírem, um imenso abraço em cada um de vocês! Link para contribuir: vaka.me/1156054

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Com informações: RPA

Crédito Imagens: Instagram

 

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