Por: Fabrício Carpinejar

Como estava sempre dentro dela, fui obrigado a fazer uma escolha: ou vivia o espaço com liberdade ou não vivia mais para consertá-la.

Precisei perguntar: quem manda em quem? Quem serve a quem?

Será que vale a pena dedicar a rotina inteira para que ela não tenha nenhum problema? A arrumação nunca terminaria.

Comecei até a me precaver com a insaciabilidade da faxina. De diarista, migrava para a carteira de trabalho assinada. Já chegava ao ponto de varrer o teto e comemorar a localização de teias de aranha.

Limpo o banheiro, estará sujo em dois dias. Esfrego pano na geladeira, estará desorganizada em uma semana. Lavo as roupas e estarão logo sujas para uma nova remessa nos varais.

Casa não é hotel, não é cenário, não é estúdio. Não estava nem mais recebendo visitas. Qual sentido da permanente cobrança? Buscava uma crise de ansiedade pela absoluta falta de controle?

Morar é gastar, é se espalhar, é quebrar algo, é dividir a presença.

Não que eu tenha me tornado desleixado. Eu só me preocupo menos. Parei de ser chato com a minha esposa vigiando e fiscalizando, procurando que tudo fique no lugar. O que me interessa é estarmos bem dentro desse nosso cantinho. Com os nossos defeitos em harmonia com os defeitos do imóvel.

Reservo momentos para uma bagunça essencial, orgânica, permitindo livros fora de ordem, computador perdido, colchonete de ginástica na sala.

Passei a aceitar as suas falhas, já que nem podia chamar eletricista, hidráulico, pintor, marceneiro.

Não me comovo mais com as chantagens das cicatrizes. Convivo com as manchas no braço do sofá, com o círculo do copo na mesa de madeira, com os fios puxados do tapete, com o controle remoto da televisão com durex na tampa, com as bolhas na parede do lado da jardineira, com os arranhões das rodinhas da cadeira do escritório no piso.

São os sinais de que tem gente em casa, gente consciente respeitando o isolamento, dando tempo para a ciência encontrar a cura. Um dia a mais no confinamento é um dia a mais para a medicina no entendimento da doença.

Crédito imagem: Pixabay

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