Por: Martha Medeiros

Qual seu conceito de luxo?

Você não responderá que é um iate ancorado no píer de Portofino, nem dirá que é uma penthouse em Nova York de frente para o Central Park – mesmo que seja. Não vai dar essa bandeira, já aprendeu que ostentar é cafona. Dirá que luxo é ter tempo, resposta óbvia e condizente com os dias apressados de hoje, ou dirá que luxo é ter amigos de verdade, e de fato é, já que colecionar seguidores é um delírio cujo efeito ainda foi pouco pesquisado. Pode também falar sobre a família, instituição que anda em alta, ou enaltecer a saúde, sem a qual nada prospera. Mas se fosse obrigado a transcender as respostas óbvias, o que responderia? O meu luxo: dormir uma noite inteira sem despertar no meio.

Não precisam ser 10 horas sequenciais, não sou de extravagâncias. Estou falando em desmaiar por seis horas seguidas, desfalecer por sete horas ininterruptas. Às vezes, acontece. Às vezes? Pois é. Deveria ser corriqueiro, não esporádico.

Geralmente, deito cedo. Entre 23h e 23h30 já estou em sono profundo. Até que, por volta de duas da manhã, sede! Preciso de um gole d´água (maldito vinho do jantar). Às quatro, um inexplicado suor escorre pelo corpo. E, logo depois, um arrepio de frio. Puxo o lençol até o pescoço, para dali a 10 minutos jogá-lo no chão, e logo juntá-lo de novo e me cobrir com o edredom, e assim sucessiva e esquizofrenicamente.

Se não acordo com a sede ou com os calorões, acordo com o canto dos pássaros – o dia começa mais cedo para eles. Ou é um mosquito que resolveu passear rente ao meu ouvido. Ou são as trovoadas lá fora. A filha que chegou de madrugada. O gato que mia. O whatsapp que apita. Uma música no andar de cima. A buzinada de algum notívago comemorando a vitória do seu time – às três da manhã! Se nada disso desperta você, parabéns, sono pesado é uma benção. Tomara que a criatura com quem você divide a cama seja tão abençoada quanto, mas duvido.

O mais provável é que sua pessoa amada vá ao banheiro duas vezes por noite, vire de um lado para o outro, ronque, tenha cãibras, fale durante o sono, acenda a luz pra ir atrás de um ansiolítico, encasquete que não trancou a porta da frente, escute um barulho lá fora e pergunte: “você também escutou esse barulho lá fora?” e você “hã? que barulho?” e ela, “esquece, acho que me enganei, dorme, amor”, deixando você mais acesa que um farol noturno no meio do oceano – quem inventou essa história de que precisamos dormir ao lado de quem amamos? Romantismo tem limite.

E eu nem falei de casais com bebês recém-nascidos.

Dormir uma noite de ponta a ponta sem acordar uma única vez. Melhor que iate, cobertura em Nova York, bangalô nas Maldivas, uma adega de vinhos italianos, centenas de curtidas no seu post. Luxo mesmo é, depois de um dia eletrizante, apagar sem sobressaltos.

 

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