Motivação

Paulinho, Roupa nova: “Um sonho Morreu” -Fabrício Carpinejar

UM SONHO MORREU

Fabrício Carpinejar

É hábito elaborar uma lista do que ainda falta fazer na vida. Uma das pendências do meu inventário particular era assistir ao show do Roupa Nova. Os amigos já conheciam essa lacuna e roteirizavam coincidências. Jamais tive a sorte de estar na minha cidade quando a banda oferecia o seu espetáculo. Amarguei dezenas de desencontros absurdamente pontuais.

E não sou daqueles que gosta de Roupa Nova com vergonha, avisando que é brega, desculpa de quem não se assume.

Eu gosto com convicção, de quem cresceu com as suas interpretações traduzindo os nossos altos e baixos sentimentais.

Show de Roupa Nova é algo único. É possível vislumbrar o arrebatamento, a energia do conjunto e a maratona de adrenalina pelos DVDs.

Pois imagina um show em que você sabe de cor todas as letras. É como pontuar ao máximo num karaokê às cegas. É como juntar trilhas de trinta novelas num único palco (como “Dona”, de Roque Santeiro, e “Coração Pirata”, de Rainha da Sucata). É como virar a noite com cinquenta e dois singles.

Quem como Roupa Nova teve cinquenta e dois sucessos? Não há formação com tamanha longevidade de êxitos: 20 milhões de cópias vendidas e 37 discos lançados.

Arrisco dizer que os meus pais, eu e os meus filhos, três gerações de uma família, são capazes de entoar sem erro “Todo azul do mar”, “Linda demais”, “Volta pra mim”, “A Força do Amor”, “Frisson”, “A Viagem”, “Whisky a Go-Go”, “Sapato Velho”, “Seguindo no Trem Azul”, “Um Sonho A Dois”, “Natal Todo Dia”, “Começo, meio e fim”, “Amar é…”, “Os corações não são iguais”, “Chuva de prata”, “Meu universo é você”, “Linda”, “Anjo”, “Canção de Verão” e “Raio de Sol”.

Parece que você já recebe esses hits pelo cordão umbilical. Só pode. Nascemos sabendo, nascemos cantando. É uma playlist que vem na gestação.

O grupo está espalhado em nossos hábitos, em nossa infância, em nossa formação, das festas de formatura às celebrações de casamento, do “Xou da Xuxa” ao “Vídeo Show”, da vinheta do “Rock in Rio” ao tema da vitória de Senna.

O que não esperava é que o vocalista Paulinho fosse morrer aos 68 anos, vítima da COVID-19.

Depois de quarenta anos, a banda nunca mais será a mesma. Um dos cavaleiros da alegria já não está entre nós, o puxador da trupe se calou, o grito de guerra do amor foi silenciado nesta segunda (14/12).

Não realizarei o sonho. Meu checklist ficará para sempre incompleto.

 

 

Sensível Mente

Revista de opinião e entretenimento, sobre temas relacionados ao equilíbrio entre mente corpo e espiritualidade.

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