Por: Octavio Caruso

Embalado pelo sentimento de nostalgia que este filme sempre me evoca, pensei na figura mais próxima de um Alfredo na minha infância. Não foi relacionado ao cinema, mas teve um papel fundamental naquele período complicado em que eu sofria bullying na escola. Paulinho, o jornaleiro da banca que ficava na calçada em frente, um senhor que me conheceu aos seis anos de idade, quando ainda ficava no colo do meu pai para conseguir enxergar as revistas em quadrinhos que ele vendia.

Todos os dias, pela manhã e ao final das aulas, eu passava religiosamente lá, ele sempre me saudava com carinho, “Tavinho, já viu esta aqui com o Super-Homem?”, sorria, apertava minha mão e contava passagens de sua vida, falava de sua família. Os anos correram, já adolescente, quantos gibis ele me presenteava, ou dizia que era para eu levar e pagar no dia seguinte, depois propositalmente fingia esquecimento, só porque ele sabia que eu estava passando um momento muito complicado, deixando de comer no recreio para poder comprar uma revista.

Eu sempre acabava pagando tudo, ainda que com atraso, mas ele não ligava, pelo contrário, ele me estimulava a ler mais. Qualquer profissional em sua posição, dependendo das vendas para sobreviver, teria ignorado aquele menino magricela ferrado, que chegava na banca contando moedas. Ele me dava atenção, guardava as edições que eu gostava, quando faltava apenas uma para acabar, em suma, ele verdadeiramente se importava.

Ele confiava em mim, muitas vezes me deixava tomando conta do negócio enquanto ele ia lanchar rapidamente alguma coisa. Eu me sentia o máximo lá dentro da banca, mas morria de medo de alguém pedir algo, a minha timidez na época estava no auge. Quando me perguntavam na infância o que eu queria fazer quando crescesse, não pensava duas vezes, eu queria ser jornaleiro, já que na minha cabeça, eu teria todas aquelas revistas para ler de graça. Só que, em dado momento, eu comecei a sentir que ele não estava no seu estado normal, tinha vezes em que ele ficava sério, silencioso, deprimido, não falava comigo direito.

Ele começou a trabalhar alcoolizado, eu nunca soube a razão de sua tristeza, daquela profunda melancolia, mas aquilo me deixava mal, eu chegava empolgado e já não era recebido com o mesmo brilho no olhar. Eu me formei, saí da escola, de vez em quando passava lá para abraçar meu amigo, mas ele já não estava mais.

Não sei se ele está vivo hoje, no início das redes sociais tentei encontrar seu nome, mas sem sucesso, a realidade é que fico feliz porque a última vez que o vi, já dando os primeiros passos na área artística, tive a oportunidade de atualizar ele sobre as mudanças que operei em minha vida, ele me parabenizou com aquele brilho no olhar de outrora, nos despedimos e agora ele vive apenas em minha memória. A crise atual está praticamente levando as bancas de jornal à extinção, assim como ocorreu com as locadoras de vídeo.

Em uma época muito difícil, em que eu chorava só de pensar que precisava ir para a escola, o Paulinho, com seu universo fascinante de revistas em quadrinhos, foi a pessoa que me fazia sorrir e voltar mais leve para casa. Os heróis nas páginas, dentro da mochila, injetavam esperança para suportar os próximos dias. Ele provavelmente nunca mensurou sua importância, um homem simples, mas eu dedico este texto a ele.

Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso – 1988)

O menino Totó (Salvatore Cascio/Marco Leonardi/Jacques Perrin) se encanta pelo cinema e inicia uma grande amizade com Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista de sua pequena cidade. Já adulto e agora um cineasta bem-sucedido, Totó volta a lembrar de sua infância ao descobrir que seu velho amigo faleceu.

O aspecto mais bonito na trama é que o cinema na vida do menino atua, não apenas como porto seguro para a ausência paterna, morto na guerra, e a insegurança transmitida pela mãe, mas também como fonte de estudo, como molde comportamental, Tornatore celebra a capacidade real da sétima arte salvar vidas.

O refúgio na cabine de projeção protege metaforicamente o pequeno com o véu da cultura, translúcido e mais resistente que qualquer armadura. O templo de lazer daquela comunidade conforta cada indivíduo de maneira única, do senhor que extravasa no escuro as emoções reprimidas na sociedade à aquele que dorme em todas as sessões, todos identificam aquele espaço arquitetônico como um ser vivo.

O incêndio, a reconstrução, os efeitos colaterais, o desencantamento do rapaz com o amor idealizado, a demolição do cinema para a construção de um estacionamento, tudo isto conduz à apatia, a grata negação do lúdico como revide masoquista e, por conseguinte, a crença equivocada de que o passado serviu apenas como ponte necessária.

O homem encara seu reflexo no espelho e percebe que não há mais sentido naquela experiência. Se viver é apenas a passagem do tempo até o inescapável deterioramento total do corpo, como conseguimos manter a lucidez na execução rotineira de tarefas que raramente consideramos fundamentais? A arte oferece uma resposta agradável e extremamente eficiente.

A ternura que lacrimeja na linda trilha sonora de Ennio Morricone evidencia ao espectador o leitmotiv da trama, a necessidade de se valorizar a simplicidade que toca o coração, mais do que qualquer outro impulso, mais do que a ambição profissional, mais do que a vaidade, mais do que o egoísmo romântico. A melodia que vai ninar internamente seu último suspiro será aquela que você pensava ter esquecido nos recônditos das frustrações naturais inerentes à maturidade.

Quando Salvatore, adulto, grisalho, rosto cansado, descobre profundamente emocionado o singelo presente de seu querido amigo de infância, as cenas de beijo cortadas pela censura do pároco, o desconhecido fascinante para a criança, ele volta a ser Totó e se permite, por alguns minutos, sonhar sem constrangimento, purificado, intocado pelo cinismo, ele rejuvenesce e, neste processo, sente aliviar o acúmulo de dor, angústia, enxergando tudo pela primeira vez, não apenas as imagens em movimento na tela grande. Ele, após vários anos de dedicação ao cinema enquanto profissão, apaixona-se novamente por aquela arte.

O sorriso de Totó no desfecho restabelece o vínculo precioso, o fardo é abandonado, não importa quantos anos ainda terá pela frente, não importa quais tragédias ainda viverá, nós sabemos que, graças ao legado cultural de Alfredo, o menino-homem que abandonou a sessão estará preparado para tudo.


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